Archive for Novembro 2012

Os trombudos, de MEC

«Uma seita que a crise denunciou bem denunciada foi a seita dos trombudos. Já eram trombudos quando ainda havia algum dinheiro e algum trabalho. Hoje já não há maneira de piorarem a tromba que sempre tiveram, para assinalar a pioria geral que também os atingiu, com toda a força democrática, como se dantes tivessem sido lanternas de esperança, optimismo e boa disposição. Muitos dos que antes eram felizes - talvez sem razão - mas que hoje, com razão, já não o são, tornaram-se trombudos convincentes. Ao deprimir os que ainda têm alguma sorte, prestam um serviço: avisam-nos que a tempestade já chegou. Mas os trombudos de sempre - os pessimistas profissionais que confundiram a relativa felicidade com a fatalidade da nossa actual miséria - não conseguiram acompanhar os movimentos deprimentes dos tempos, porque não deixaram folga na tromba, como quem poupa neura para um dia em que sempre chova, como no sábado passado.
Os portugueses mais novos - os que mais têm razão para estarem trombudos - contrariam uma trombudice de sempre, de que sempre se queixaram quem nos visitou. Nós somos o adjectivo inglês glum. Os trombudos eternos orgulhavam-se disso. Durante a mão-cheia de anos de alívio, avisaram-nos, com tanto prazer como razão, que era sol de pouca dura.
É verdade que durou pouco e que não foi graças a nós. Mas foi sol. E o sol não se esquece. Os trombudos, ao manter os semblantes enquanto a noite se instala, anoiteceram antes do tempo.»

Miguel Esteves Cardoso
29 novembro 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves

Defender a Esperança


«Diz-se que "a esperança é a última a morrer"; é verdade, mas precisa de ser defendida. A esperança, de facto, não é puro optimismo, não é automática, nem é totalmente espontânea. Pode crescer ou diminuir, tem que ser defendida, guardada, consolidada. Como? O caminho não é negar a realidade, nem evitar conhecê-la. Isso não passa de fuga...
Precisamos de não nos deixar "envenenar", sobretudo diante de uma comunicação social tão negativa e parcial, precisamos de aprender a ver o lado positivo das pessoas e acontecimentos, precisamos de "tirar partido" dos factos e circunstâncias, precisamos de ver na inegável e profunda crise também uma oportunidade e utilizá-la. É a altura de mudar hábitos e rotinas, de dar espaço à criatividade, de não ficar apenas no lamento e de braços cruzados.
A crise é bem real, mas é também uma crise de desânimo e, como se diz, "não há mal que sempre dure". É preciso lutar, tentar, reconhecer que a nossa situação colectiva não é sequer comparável à de muitas situações, muito piores, do nosso tempo e do nosso mundo.
Defender a esperança em nós, antes de mais, mas também defendê-la nos outros, ajudá-los, animá-los, não os deixar afundar ou desistir.
Se o que acabámos de escrever vale para todos, é também uma questão de bom-senso e de sanidade mental, vale muito mais para aqueles que se dizem cristãos, aqueles para quem a fé é princípio e fonte de vida. A fé autêntica, na verdade, desemboca em caridade, em solidariedade e partilha, mas também, necessariamente, em esperança.
A confiança, a certeza de que Deus está connosco, nos acompanha e que só permite o mal para tirar dele o bem e ver o bem maior, é sinal distintivo de uma fé adulta e responsável.
Portanto, pôr os meios possíveis, confiar e não se deixar vencer pelo desânimo e pelo desespero.»

Pe. António Vaz Pinto, sj

19 novembro 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves

L'enfance est belle





Acordar vinte minutos mais cedo para poder estar com os meus colegas no recreio antes das aulas. Não me deixarem tomar café. Mandar papelinhos numa aula. Gozar com as meninas vaidosas, sempre a cochicharem sobre os rapazes que são giros. O toque da escola, a correria para ver quem chegava primeiro ao campo de terra batida para jogar futebol, senão tinha que jogar no campo de gravilha. Sufragar por um croissant. A perícia de lançar um pião. O dia de comprar cromos de futebol e levar o maço de repetidos para trocar com os amigos. O meu pai deixar-me ficar com ele na sala à noite a ver um filme sem a minha mãe dar conta. Esperar que os meus avós me viessem buscar à escola e passar a tarde com eles porque os meus pais estavam a trabalhar. Os gelados do dia de Santa Rafaela Maria. Apanhar o autocarro 78 às 7h da manhã de sábado com a minha avó para ir com ela para o hospital de S. João. Entrar no Estádio das Antas sem precisar de bilhete porque como sou pequeno consigo passar por cima da cancela. A magia de os meus pais me organizarem uma festa de anos e receber brinquedos. Ficar feliz da vida quando recebia uma moeda de cinquenta escudos. Acordar às seis e meia da manhã de sábado para ouvir a música de abertura da Sic e ver todos os desenhos animados dos quatro canais. Ler um livro d'Os Cinco. Os tazos da Matutano. Ver o meu avô a descascar laranjas e a imitar um homem com barbas. Ter medo do conde drácula da Rua Sésamo. Ir um mês de férias para o Algarve, fazer exercícios da colecção Férias Constância e escrever cartas à minha mãe. Ler os almanaques da Turma da Mónica como quem come pipocas. Esperar ansiosamente pelo próximo filme da Disney. Não precisar de um telemóvel ou de internet para me encontrar com os meus amigos.


Tenho saudades de ser feliz com o essencial.


15 novembro 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves

Em mãos

Em mãos

Mais lidos

Etiquetas

- Copyright © O que me faz correr -Metrominimalist- Powered by Blogger - Designed by Johanes Djogan -