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Fiódor Dostoiévski, "Os Irmãos Karamázov" (1ª Parte)

«Não há nem pode haver pecado na Terra que Deus não perdoe a quem se arrependa sinceramente. Nem o homem é capaz de cometer um pecado tão grande que esgote o infinito amor de Deus. Existirá algum pecado que supere o amor de Deus? (...) O amor é um tesouro tão inapreciável que com ele se pode resgatar todo o mundo e não só resgatar os nossos pecados como os pecados alheios.»

«No fundo não receamos muito todos esses socialistas, anarquistas, descrentes e revolucionários; vigiamo-los e conhecemos bem a táctica deles. Mas existem entre eles, por poucos que sejam, algumas pessoas muito especiais: são crentes e cristãs mas, ao mesmo tempo, socialistas. É a esses que mais receamos, é uma gente terrível! O socialista cristão é mais temível do que o socialista descrente.»

«o homem não procura tanto Deus como procura o milagre»

«não chores, a vida é um paraíso e todos estamos no paraíso, só que não queremos saber disso, porque, se quiséssemos saber, amanhã mesmo seria o paraíso em todo o mundo.»

«Para que havemos de contar os dias se até um dia chega para o homem conhecer toda a felicidade?»

«Da casa dos meus pais eu apenas tinha recordações queridas, porque o homem não pode ter recordações mais preciosas do que as da sua primeira infância na casa dos pais, e sempre assim acontece, mesmo que o amor e a concórdia na família sejam pequenos. Até da família menos boa é possível guardar recordações preciosas, se tivermos alma para procurarmos o que é precioso.»

«É preciso lançar apenas uma pequena semente, minúscula: se a semente cair na alma do homem simples, não morrerá lá, viverá na sua alma durante toda a vida, esconder-se-á dentro dele mesmo no meio das trevas, no meio do fedor dos pecados, como um ponto luminoso, como uma grande recordação.»

«Jovem, não esqueças a oração. De cada vez, na tua oração, se ela for sincera, cintilará um novo sentimento e, nesse sentimento, uma ideia nova que não conhecias antes e que agora te reanima. E perceberás que a oração é educação.»

15 agosto 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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'Retrato do Artista Quando Jovem', James Joyce

Um livro brilhante!
Mais do que uma obra com algum cariz autobiográfico, este livro relata a trajectória de um homem em busca do conhecimento interno de si mesmo. Joyce narra o processo de amadurecimento de Stephen Dedalus, o jovem protagonista deste romance, desde os tempos em que frequentava o colégio de Jesuítas até à idade adulta. Um jovem inteligente e brilhante, que os Jesuítas tentam conduzir para os seus quadros. E o amadurecimento começa aqui, em conflitos pessoais, sobretudo religiosos, mas abrindo o leque de discussões à política, família, homossexualidade, sociedade, estética...
A difícil passagem da adolescência à maturidade, a procura do sentido da vida e da arte, a emergência do indivíduo frente à sociedade, o carácter aleatório e quase sempre desconcertante da vida são as grandes discussões que acompanham o fio condutor desta obra de uma ponta à outra.


«Se um laico, no decurso de um baptismo, asperge a criança antes de pronunciar as palavras rituais, estará a criança baptizada? Será válido o baptismo com água mineral? Como pode acontecer que, a primeira bem-aventurança prometendo o reino dos céus aos pobres de espírito, a segunda promete aos humildes que também possuirão a terra? Porque foi o sacramento da Eucaristia instituído sob as duas espécies de pão e vinho, se Jesus Cristo estava presente em corpo e em sangue, em alma e em divindade, apenas no pão ou apenas no sangue? Uma parcela mínima de pão consagrado conterá todo o corpo e sangue de Jesus Cristo, ou apenas uma parte do corpo e do sangue? Se o vinho se transforma em vinagre e a hóstia se corrompe e decompõe, estará Jesus Cristo sempre presente nas suas espécies como Deus e como homem?»

«Encostou a cara ao vidro da janela e ficou a olhar para fora, para a rua cada vez mais escura. Formas passavam nesta e naquela direcção por entre a luz opaca. E isso era a vida.»

«A garganta ardia-lhe com vontade de gritar alto, de atirar o grito do falcão ou da águia, planando, anunciar com um grito arrebatador a sua libertação nos ventos do largo. Era esse o apelo que a vida dirigia à sua alma e não a monótona e grosseira voz do mundo dos deveres e das desesperanças, não a voz inumana que o convidara outrora para o serviço incolor do altar. Um único instante de selvagem voo bastara para o libertar e o grito de triunfo que os seus lábios tinham retido retumbou no seu cérebro fazendo-o estalar.»

«O objectivo do artista é a criação do belo; quanto a saber o que é belo, é outra questão.»

«Três coisas são necessárias à beleza: inteireza, harmonia, claridade.»

«Talvez a sua vida não fosse mais do que um rosário de horas, uma existência simples e estranha como a de um pássaro, alegre de manhã, activa ao longo do dia, cansada ao pôr do Sol? Um coração simples e voluntarioso como o coração de um pássaro?

02 dezembro 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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'D. Quixote de la Mancha', Miguel de Cervantes

     A história de Dom Quixote de la Mancha pode bem começar com uma citação sua: «Não tenho medo de nada  nem de ninguém e muito menos de dois leões que não passam de fracos gatinhos». Também apelidado de Cavaleiro da Triste Figura, por ter perdido grande parte dos seus dentes numa peculiar aventura e pelo seu ar escanzelado e esguio, o nosso herói é nada mais nada menos que um valente louco com virtudes inúmeras.
     O pacato Alonso Quixano, de tantos livros da Cavalaria Andante ter lido, um belo dia quase exigiu que fosse ordenado cavaleiro andante e transformou-se no ilustre D. Quixote de la Mancha. Em virtude do título ganho, rumou cavalgando a terras espanholas, no seu cavalo Rocinante, em busca de ressuscitar a perdida Ordem da Cavalaria Andante e de honrar a sua donzela Dulcineia de Tolboso com as suas fartas façanhas e conquistas, sempre acompanhado do seu fiel escudeiro Sancho Pança.
     Herói de comportamento irretorquível, de amores infinitos, de coragem inabalável, com pureza de consciência, católico inabalável, de uma enorme fidalguia e, não obstante todas estas qualidades, com a sua veia de loucura. Exemplos dessa loucura são a aventura dos moinhos de vento que foram tomados como gigantes perversos, do enorme rebanho de ovelhas considerado como um imenso exército inimigo e da bacia do barbeiro que foi vista como o fabuloso elmo de Mambrino.
     A obra de Miguel de Cervantes foi talvez o primeiro verdadeiro romance da literatura universal. E que este prémio, por assim dizer, não seja algo que assuste os leitores... muito pelo contrário! Apesar da linguagem arcaica, é um livro relativamente acessível e repleto de ensinamentos e moral, para não falar do entretenimento constante que proporciona ao leitor. Pelas inúmeras aventuras do insigne D. Quixote de la Mancha, lê-lo é honrar o seu espírito puro e excêntrico, eterno protesto da louca razão!

06 outubro 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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05 Agosto 2011 'Pensamento político contemporâneo', J. C. Espada e J. C. Rosas (Parte V)

JOHN RAWLS: o primado da justiça numa sociedade pluralista

     Os eixos fundamentais do pensamento de Rawls são, por um lado, a prevalência dada ao que chama "a primeira virtude da sociedade" e, por outro, a necessidade teórica e prática de pensar a virtude social da justiça no quadro pluralista que marca as democracias constitucionais, ou Estados de direito.
     Uma sociedade justa de cidadãos livres e iguais, mas divididos nas suas doutrinas abrangentes, é possível na medida em que uma concepção pública de justiça restrita ao domínio político possa ser o foco de um consenso de sobreposição entre doutrinas abrangentes  razoáveis que fundamente os aspectos essenciais da constituição e os principais arranjos económicos e sociais. O bem do sistema de cooperação é simultaneamente o bem dos seus membros. Contudo, esta visão substantiva é, em parte, uma realidade e, também em parte, uma utopia.
     Partindo da ideia de sociedade como um sistema de cooperação, mas também conflito, entre indivíduos livres e iguais, quais são os princípios da justiça que podem estabelecer um adequado equilíbrio quanto às reivindicações respeitantes às vantagens e encargos dessa cooperação, quer em termos de direito e liberdades básicas, quer em matéria económica e social? O que é uma sociedade justa de pessoas livres e iguais? Como é possível a existência de uma sociedade justa e estável de cidadãos livres e iguais divididos nas suas doutrinas religiosas, morais e filosóficas?
     Segundo Rawls, à filosofia política podem-se atribuir quatro papéis fundamentais. Em primeiro lugar, tem uma função prática, surgindo quando existem importantes divisões na sociedade, por exemplo quando não se encontra consenso sobre o modo correcto de entender a liberdade. Em segundo lugar, a filosofia política tem uma função de orientação, permitindo conceber os fins e propósitos da sociedade no seu conjunto e o papel das pessoas como cidadãos dessa sociedade. Em terceiro lugar, tem um papel de reconciliação, permitindo compreender a racionalidade das instituições sociais formadas ao longo do tempo. Por fim, tem a função de formular uma "utopia realista" que conjugue uma visão ideal da sociedade justa com a exequibilidade social, tendo em atenção a realidade histórica. Em suma, a filosofia política parte dos desacordos existentes na sociedade e permite uma orientação e uma reconciliação de cada um com a sociedade em que se insere, mas também permite a articulação entre o real e o ideal.
     A liberdade e igualdade fundam-se em dois poderes morais: a capacidade para formular e perseguir uma concepção determinada do bem e a capacidade para um sentido de justiça. O primeiro é uma consequência da racionalidade, enquanto que o segundo advém da razoabilidade. São estes poderes morais, assim como as qualidades usuais do entendimento, que permitem a cada um ser um membro igual do sistema de cooperação social e desenvolver em liberdade a sua concepção do bem.
     A cooperação entre indivíduos iguais e livres requer a distribuição equitativa dos inevitáveis benefícios e encargos resultantes da vida em sociedade. Quando há cooperação existe também conflito em relação à partilha de vantagens e obrigações. É importante notar que, em qualquer sociedade, já existe uma estrutura básica da qual depende a distribuição dos bens sociais primários - liberdades, oportunidades de acesso a poderes e funções, riqueza e rendimentos - que é composta pelo conjunto das principais instituições - constituição, tribunais, estatuto económico, sistema educativo - e pelo modo como elas funcionam em conjunto para determinar na prática os direitos e deveres dos cidadãos. Cada um nasce já num enquadramento regulado por uma estrutura básica da qual depende em boa parte o ponto de partida de cada indivíduo.
     Segundo Rawls, a distribuição dos bens sociais primários segue dois princípios de justiça: o princípio da igualdade em sentido liberal e o princípio da diferença. O primeiro diz que cada pessoa deve ter um direito igual a um esquema inteiramente adequado de direitos e liberdades básicas, compatível com o mesmo esquema para todos, e que deve ser garantido o justo valor às liberdades políticas. O segundo princípio diz que as desigualdades económicas e sociais devem satisfazer duas condições: ser a consequência do exercício de cargos e funções abertos a todos em circunstâncias de igualdade equitativa de oportunidades; ser para o maior benefício dos membros menos favorecidos da sociedade.
     Os princípios da justiça são reforçados através do argumento da "posição original". Funciona como um dispositivo de representação para os cidadãos de uma democracia. Na posição original, as partes que nos representam devem escolher a melhor concepção a partir de uma lista prévia fornecida pela história do pensamento político, lista esta que a qualquer momento pode ser alterada, e visa garantir a equidade da escolha e afastar a parcialidade que sói marcar as nossas opções em situação factual. Os princípios da justiça garantem a possibilidade da livre prossecução de qualquer concepção do bem compatível com a justiça e permitem uma clara ordenação das reivindicações quanto à distribuição dos bens sociais primários.
     Um socialismo de Estado não configura uma sociedade justa, conduz a um regime de partido único que controla a economia e pouco utiliza os mecanismos do mercado ou os procedimentos democráticos, violando flagrantemente o primeiro princípio da justiça. Para Rawls, os tipos de estrutura básica mais adequados são o socialismo liberal ou a democracia de proprietários: ambos são favoráveis à existência de um mercado livre e asseguram o direito de propriedade pessoal.
     Se uma sociedade com instituições justas implica uma democracia constitucional e, assim, a protecção das liberdades dos cidadãos, daí resulta um pluralismo de doutrinas abrangentes razoáveis, compatíveis com a justiça, de carácter moral, religioso ou filosófico. Uma doutrina abrangente é uma mundividência que articula valores e virtudes num sistema, muitas vezes apoiada numa visão religiosa ou filosófica. O pluralismo não tem um carácter provisório ou acessório numa sociedade democrática, é uma das suas características naturais e permanentes.

06 agosto 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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'Pensamento político contemporâneo', J. C. Espada e J. C. Rosas (Parte IV)


ISAIAH BERLIN: da liberdade negativa à sociedade decente

     A filosofia de Berlin caracteriza-se fundamentalmente por uma defesa tenaz da liberdade e um ataque permanente ao dogmatismo inerente ao monismo.
     Berlin alerta-nos para o "poder das ideias" e para a influência que estas têm na formação e organização das nossas visões particulares do mundo. As duas grandes ameaças totalitárias que marcaram o século XX não podiam ser enfrentadas sem que se reconhecessem e compreendessem os alicerces filosóficos que as sustinham. As acções, noções e palavras políticas não são inteligíveis senão no contexto dos temas que dividem os homens que as usam, e o maior deles é a guerra sobre a questão da obediência e da coerção: "Porque é que eu devo obedecer a alguém? Porque é que eu não poderei viver como quero?"; "Se eu desobedecer, posso ser coagido? Por quem, em que medida, em nome de quê?".
     Para Berlin, existem dois modos de conceber a liberdade: uma forma negativa e outra forma positiva. Argumenta que cada um dos conceitos está vulnerável a ser pervertido, transformando-se no próprio vício em função da resistência ao qual o conceito foi pensado.
     A aproximação negativa remete-nos para a resposta à pergunta "Qual é a área na qual o sujeito deve ou pode agir sem a interferência de terceiros?", ou seja, um sujeito é livre na medida em que nenhuma pessoa interfira com a sua acção. Se essa interferência for além de um determinado nível, pode-se dizer que o sujeito está a ser coagido ou, no limite, escravizado. Isto é, só se pode falar em falta de liberdade na estrita em que um determinado agente se veja impedido de atingir um objectivo possível em resultado da interferência deliberada de outros seres humanos. No entanto, como a liberdade não é o único valor político nem o único propósito dos homens, pode ser necessária a sua restrição com vista, por exemplo, a evitar a injustiça ou a miséria generalizada, mas isto não deixa de ser um sacrifício à esfera de liberdade individual: «Se a minha liberdade depende da miséria de um número de outros seres humanos, o sistema que promove esta situação é injusto e imoral. Mas se eu restrinjo ou perco a minha liberdade, com vista a diminuir a vergonha de tal desigualdade, e com isso não aumento a liberdade individual de outros, ocorre perda absoluta de liberdade. Isto pode ser compensado por um ganho em justiça, ou em felicidade, ou em paz, mas a perda permanece, e é uma confusão de valores. (...) Restringir a liberdade não é fornecê-la, e a coacção, não importa quão bem justificada seja, é compulsão e não liberdade».
     Ao conceito negativo de liberdade, opõe-se um outro conceito positivo, que está implicado na resposta à pergunta: "O quê, ou quem, é a fonte de controlo ou de interferência que pode determinar alguém a fazer, ou ser, isto em vez daquilo?". Agora a questão reside em identificar e compreender o quê ou quem tem legitimidade para controlar, ou interferir sobre, o sujeito. Eu sou livre porque sou autónomo, eu obedeço a leis mas eu impu-las sobre mim próprio: liberdade é obediência, mas «obediência a uma lei que nós prescrevemos a nós próprios». Livre é o eu autónomo, aquele que é o senhor de si próprio, aquele que se libertou pela razão. Não obstante, o caminho da libertação pela razão não se restringe apenas ao indivíduo, ele pode e deve ser aplicado às relações entre indivíduos: «Pois se eu sou racional, eu não posso negar que o que é certo para mim deve, pelas mesmas razões, ser certo para os outros que são racionais como eu. Um Estado racional (ou livre) seria ser um Estado governado por leis tais que todos os homens racionais aceitariam livremente».
     Para Berlin, é um lugar-comum que a justiça e a generosidade, ou as lealdades privadas e públicas, podem conflituar violentamente entre si, e daqui pode-se generalizar que nem todas as coisas boas são compatíveis, e menos ainda os ideais da humanidade. Assim sendo, os conflitos de valores podem ser um elemento intrínseco e irremovível da vida humana: «A noção do todo perfeito, da solução derradeira, em que todas as coisas boas coexistem, não só me parece simplesmente inatingível mas conceptualmente incoerente. Alguns de entre os Bens Supremos não podem coexistir. É uma verdade conceptual. Estamos condenados a escolher, e cada escolha pode implicar uma perda irreparável». É neste sentido que se percebe um ataque contra as construções racionalistas monistas e dogmáticas, contra todas as formas de reducionismos que tudo esmagam contra o vazio mortal da uniformidade, porque ao arrogar-se detentor da verdade, o sistema irá inevitavelmente sufocar, oprimir e reprimir qualquer tentativa de liberdade. «O pluralismo (...) parece-me um ideal mais verdadeiro e mais humano do que os objectivos daqueles que, em estruturas grandes, disciplinadas e autoritárias, procuram o ideal do autodomínio positivo, por classes, por povos ou toda a humanidade. É mais verdadeiro, porque, pelo menos, reconhece o facto de os objectivos humanos serem múltiplos, nem todos comensuráveis, e em perpétua rivalidade entre si. É mais humano porque não priva os homens, em nome de um qualquer ideal, remoto ou incoerente, de muito do que descobriram ser essencial às suas vidas, enquanto seres humanos que se autotransformam de forma imprevisível».
      «O melhor que se pode fazer, como regra geral, é manter um equilíbrio precário que previna a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis - é este o primeiro requisito para uma sociedade decente».

05 agosto 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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'Pensamento político contemporâneo', J. C. Espada e J. C. Rosas (Parte III)

MICHAEL OAKESHOTT: a crítica ao racionalismo e a disposição conservadora

     O pensamento de Oakeshott assimilou no seu melhor a grande tradição da liberdade individual e do pluralismo da civilização, propondo que em cada momento cada sujeito ousasse fazer da sua vida uma vida boa, sem prejuízo de nenhuma das outras vidas com que se vai comprometendo.
     Na linha do Idealismo inglês, uma das principais ideias que Oakeshott desenvolve, de raiz hegeliana, é a seguinte: no que interessa aos propósitos da prática humana, o real é aquilo que é cognoscível, pelo que, só o que pode ser conhecido pode ser experimentado. Ser real é, portanto, pertencer a uma experiência, e toda a experiência é uma "ideia", isto é, o conteúdo de uma  consciência. Assim sendo, a consciência não pode distinguir-se dos seus conteúdos.
     Segundo Oakeshott, a vida vai-se compondo de perspectivas parciais e experiências fragmentárias, mas algumas destas formas distintas são, em princípio, comuns a todos nós - "modos" da experiência - e identifica quatro: Ciência, História, Prática, Poesia. Oakeshott entendia os modos como autónomos e iguais, de forma que nenhum, por si só, pudesse conter a verdade total acerca da experiência, mas cada um participasse igualmente no todo, e o fizesse por "abstracção" dessa totalidade de que era apenas parte. Então, a nenhum modo poderia permitir-se qualquer tentativa de sobreposição ou contradição relativamente aos outros, embora todos tendam naturalmente a invadir o território alheio: interpretar a História à luz de princípios morais, religiosos ou políticos; procurar uma base científica para a moral ou para a política... Nada pode impedir um dos "modos" de construir um discurso interpretativo de uma realidade que não é naturalmente sua, mas esse discurso é sempre irrelevante, porque resulta de um erro de categorização.
     Na sua crítica ao Racionalista, afirma que este acredita que há apenas uma "razão", externa a todas as actividades e, por isso mesmo, válida para todas elas. Portanto, a posse da razão dá ao seu possuidor o direito de reorganizar o mundo de acordo com aquilo que julga serem os critérios estritos da racionalidade. A articulação dos ditames da razão constitui uma "ideologia", e esta materializa-se na prática sob a forma de um "plano" - um programa de acção abrangendo a realidade total e que encontra justificação intelectual na racionalização que lhe deu origem. Para Oakeshott, é absolutamente criticável a ideia de "planear" como forma apropriada para a organização de uma sociedade, porque uma sociedade não é um maquinismo, é pelo menos algo vivo, e o que dá vida e realiza as sociedades é a convergência não planeada das escolhas livres dos indivíduos que a constituem. O único conhecimento social praticamente relevante é aquele que está contido no conjunto das tradições inconscientes que foram emergindo na Prática e governam a sua evolução constante. Por isso, os "planos" estão não só condenados ao fracasso, o qual só pode ser adiado pelo uso contínuo da força repressiva, como constituem um ataque grave à possibilidade de evolução futura da própria actividade social, cujo livre desenvolvimento acabam por impedir. As tradições podem mais fielmente constituir-se como guias de qualquer actividade, visto terem-se desenvolvido como o fruto de um processo de aprendizagem por tentativas e erros, o qual pressupõe uma completa imersão na realidade a que respeitam, e não é por isso permeável a qualquer tentativa de racionalização.
     O erro Racionalista, portanto, é o de imaginar que o conhecimento técnico é a única forma racionalmente aceitável de conhecimento. Os seus próprios erros e falhanços históricos não constituem motivo de auto-aprendizagem, porque o erro nunca é assacado à teoria que a ele conduziu, mas a deficiências na respectiva execução. Em política, na ânsia de conduzir a sociedade pela senda da "perfeição", defendia políticas uniformizadoras incapazes de lidar com a livre variedade de escolhas singulares e reforçava obrigatoriamente a autoridade central do Estado.
     A relação apropriada a desenvolver entre os vários discursos com que se constrói o mundo humano é a "conversação", que se opõe ao argumento ou inquérito, sendo um fim em si mesma, não procurando conclusões mas tendo pela sua própria natureza um carácter permanentemente inconclusivo. Aceita as proposições ou argumentos que possam contribuir para o seu enriquecimento, mas não aceita o monopólio de qualquer tipo de discurso. Tudo o que é verdadeiramente importante na vida é um fim em si mesmo, não tem valor instrumental, e é, neste sentido estrito, literalmente "inútil". Todas as afirmações de carácter "modal" têm que se reconhecer a si mesmas como provisórias e relativas, têm que aceitar que outras espécies de experiências são possíveis. Uma conversação só pode ser bem sucedida numa situação de moralidade, sendo a acomodação de uns indivíduos aos outros na comunidade moral aquilo que caracteriza a conversação. Quanto ao governo, deve ser uma actividade específica e limitada, sem preocupações que não sejam as de manter a paz entre os cidadãos, permitindo-lhes desempenhar em liberdade as actividades que livremente escolheram na procura de felicidade. O objectivo político não pode ser um projecto, pelo que a única regra moral a promover é a da civilidade.
     A questão política da conduta humana coloca-se do seguinte modo: como conciliar liberdade individual e escolha plural, mantendo simultaneamente a coesão social e gerindo civilmente o inevitável conflito de interesses particulares? Oakeshott defendia que o problema teria uma solução dentro do que apelidava de "disposição conservadora". Não somos naturalmente conservadores, mas somo-lo necessariamente muitas vezes. Ser conservador não correspondia a seguir qualquer credo ou doutrina, mas antes dispor-se a pensar e a conduzir-se de uma certa maneira, preferir certas escolhas em determinadas circunstâncias, aprendendo a tirar partido das possibilidades do presente em vez de ansiar nostalgicamente por passados irrecuperáveis ou por eventos futuros incertos. O conservadorismo é, então, uma forma de estar, uma "disposição".O homem de temperamento conservador acredita que um bom presente é sempre preferível a um hipotético melhor futuro, e mostra-se mais disposto a usufruir o que lhe é seguro e conhecido do que a lançar-se em aventuras e explorações de final incerto.
     Como seres de "conversação", estamos permanentemente implicados numa relação infinda de auto-descoberta e associação, temos uma história e não uma natureza. Chamamos liberdade a esta realização histórica colectiva que o indivíduo aprende a cultivar na justa medida em que a reconhece como fonte de protecção individual e pré-condição dos compromissos que toma com os seus pares. Por isso, a disposição conservadora torna-se especialmente adequada no que diz respeito à política, visto que combina a observação e o respeito pela nossa maneira corrente de viver com a crença de que governar é uma actividade específica e limitada. O governo não deve impor qualquer crença perfeccionista ou dirigir a actividade dos sujeitos, mas apenas regular e administrar o jogo social, gerir o debate de acordo com as regras regras conhecidas mas sem participar dele. Os conservadores preferem reforçar as regras existentes do que inventar regras novas, o que fazem apenas em caso de uma insuperável necessidade de adaptação histórica.
    Concluindo, Oakeshott defendia que o que era preciso era recuperar o sentido perdido de uma sociedade cuja liberdade e organização nascem do poder integrador dum vasto e subtil corpo de direitos e deveres partilhados entre os indivíduos, que não são um presente da natureza mas o produto da nossa experiência e inventividade; e recuperar igualmente a percepção da nossa lei enquanto método vivo de integração social.
   
23 julho 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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'Pensamento político contemporâneo', J. C. Espada e J. C. Rosas (Parte II)

FRIEDRICH AUGUST VON HAYEK: liberdade e ordem espontânea

     Hayek marcou a História como um dos mais sérios e demolidores críticos das ideias comunistas e socialistas, tendo sobremaneira contribuído intelectualmente para a queda dos regimes ditatoriais marxistas e para o renascimento do ideal liberal. Este autor demonstrou que a liberdade não é incompatível com a existência de ordem em sociedade, arguindo que a sociedade da abundância é a sociedade liberal, e não a sociedade comunista.

     Uma das ideias fundamentais que estrutura todo o pensamento de Hayek é a ideia da ignorância constitutiva de todo o ser humano: a mente humana não tem a capacidade de explicar, em termos de relação causa-efeito, uma série de fenómenos do mundo natural e social. A compreensão de fenómenos complexos não é impossível, mas é muito menos completa do que a compreensão de fenómenos simples, pois assentará em explicações de princípio, estruturais, gerais. Portanto, remata que é preciso entender que o poder da razão não é ilimitado, embora, se bem utilizado, possa servir o progresso humano.

     Para Hayek, a melhor ordem social será aquela que proporcionar a maximização da possibilidade de cumprimento do maior número de fins individuais. Aquela que melhor cumpre este desiderato é a ordem social liberal ou ordem capitalista, que assenta nos princípios fundamentais da economia de mercado (que, por ser um sistema descentralizado, é muito mais eficiente em permitir a maximização do produto), da liberdade individual (que permite ao indivíduo utilizar os seus conhecimentos na prossecução dos seus fins) e da minimização da coerção (em que o Estado só deve intervir para evitar que os indivíduos se coajam uns aos outros).

     Quanto à justiça social, Hayek afirma ser incompatível com a liberdade. A sociedade não possui uma vontade própria e, para além disso, o facto de determinados cidadãos receberem um rendimento inferior a outros não resulta da quebra de determinadas regras de conduta mas, pelo contrário, do cumprimento das regras do mercado. Também não é possível elaborar regras de conduta que, a serem seguidas por todos de forma igual, conduzissem a resultados que se pudessem considerar “igualmente justos”. Explica que, no mercado, a posição em que cada um se encontra é o resultado não intencional da actuação simultânea de milhões de agentes económicos, e se estes cumpriram as regras de conduta vigentes, tal posição não pode ser injusta.

     Num sistema liberal, os indivíduos só obedecem a regras gerais e abstractas (contrariamente a um sistema comunista), que não visam fins concretamente definidos mas que permitem a manutenção da ordem social espontânea. São esferas protegidas de direitos, regras que defendem a liberdade individual e permitem o funcionamento da economia de mercado. Não resultam da actividade de um legislador mas também não se encontram fixadas na natureza: são consequência de fenómenos resultantes da acção humana, sendo por isso um direito natural, na medida em que advêm de uma evolução não intencional ao longo de centenas de anos que seleccionou as regras de conduta mais eficientes e adequadas para aquela sociedade.

20 julho 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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Pensamento político contemporâneo' - J. C. Espada e J. C. Rosas (Parte I)


KARL POPPER: a sociedade aberta e os seus inimigos

     Popper ficou conhecido pelo seu combate intelectual para criticar e derrotar simultaneamente o dogmatismo e o relativismo.

     Faz a distinção fundamental entre sociedade aberta e sociedade fechada na aceitação ou não da liberdade de crítica, admitindo que esta é indispensável para o progresso do conhecimento. As democracias liberais modernas são herdeiras de um longo processo de abertura gradual das sociedades fechadas, tribais e colectivistas do passado, conflito que opôs estas democracias aos totalitarismos nazi e comunista.

     Como intransigente defensor das democracias liberais, é, contudo, um crítico contundente das teorias usualmente associadas à democracia, em particular a que entende a democracia como o regime fundado no governo do povo ou da maioria – soberania popular.

     Se o melhor regime for definido como aquele que um - talvez o mais sábio, o mais forte, ou o melhor - deve governar, então esse um pode, segundo a definição do melhor regime, entregar o poder a alguns ou a todos, dado que é a ele que cabe decidir ou governar. Chega-se então a um paradoxo: uma decisão conforme à definição de melhor regime conduz à destruição desse mesmo regime. Este paradoxo ocorrerá qualquer que seja a resposta à pergunta «quem deve governar?» (um, alguns, ou todos reunidos em colectivo) e decorre da própria natureza da pergunta - que remete para uma resposta sobre pessoas e não sobre regras que permitam preservar melhor o regime.

     A teoria da democracia de Popper decorre da resposta à pergunta: não sobre quem deve governar, mas como evitar a tirania, como garantir a mudança de governo sem violência. O governo democrático surge como um conjunto de regras que assegura esta condição, através da separação de poderes, freios e contrapesos, garantias legais – o governo constitucional. Dentro dos limites constitucionais que pretendem assegurar estas garantias, as funções e políticas específicas de cada governo devem estar sujeitas à controvérsia racional e ao ensaio em erro, mas apenas numa intervenção de tipo parcelar e não de tipo global ou utópica.

     Popper destaca-se também na sua posição contra o historicismo: afirma ser impossível prever o futuro e demonstra que as profecias historicistas não são em regra susceptíveis a teste. A “previsão” marxista sobre o inevitável advento do socialismo trata-se, portanto, de uma superstição. O socialismo nunca ocorreu nos países em que a teoria previa que devia ocorrer – os países de capitalismo maduro – mas naqueles em que não devia ter ocorrido – os países pré-capitalistas ou de capitalismo incipiente. Mais ainda, os países em regime socialista deram lugar, após a década de 80, ao capitalismo democrático, o que estava supostamente excluído pela teoria. O impulso moral humanitário do socialismo original foi corrompido pelo historicismo alegadamente científico, que, ao proclamar que todos os princípios e valores morais são relativos ao contexto e época históricos, esvaziou a moral de todo e qualquer conteúdo autónomo, subordinando-a por inteiro à doutrina do sucesso histórico. A consequência do marxismo não se fez esperar, substituindo o marxismo teórico pelo marxismo das ditaduras mais sanguinárias.

     Outra atitude que esvazia a moral de conteúdo autónomo é o colectivismo, que atribui ao colectivo uma “essência” independente dos indivíduos que o compõem. Porque o colectivo se trata realmente de um conjunto de indivíduos, alguém vai ter que falar em nome do colectivo, o que abre as portas à tirania, ao líder que fala em nome da multidão e que em nome dela esmaga toda e qualquer oposição individual. No plano moral, rouba a responsabilidade moral ao indivíduo. Daí, Popper relembra o crucial contributo do Cristianismo para a emergência do individualismo altruísta, recordando que Cristo disse «ama o teu semelhante» e não «ama a tua tribo».

     Um outro inimigo da sociedade aberta é o naturalismo ético, que consiste em tentar reduzir normas a factos, como solução para superar a arbitrariedade das normas morais. Criticando esta postura, Popper afirma que «a principal doença do nosso tempo é um relativismo intelectual e moral», caracterizado pela negação da existência de verdade objectiva e/ou pela afirmação da arbitrariedade da escolha entre duas teorias. Ou seja, o único padrão moral seguro é o de que não existem padrões. É precisamente o que Popper critica sobre o positivismo ético: um enunciado é verdadeiro se e apenas se corresponde aos factos, e só este entendimento de verdade permite dar sentido ao conceito de erro. Sustenta que podemos aprender com os nossos erros e também podemos procurar padrões moralmente mais exigentes, o que é uma característica fundamental do liberalismo – a procura de padrões sempre melhores, políticos e legislativos.

     Para terminar, Popper defende que, hoje em dia, por abertura intelectual, a cultura de massas entende hoje um relativismo dogmático dogmático assente na certeza inabalável de que todos os pontos de vista são arbitrários. A sociedade aberta torna-se, então, numa sociedade à deriva, sem padrões morais substantivos, cuja única convicção moral é a negação de padrões e a perseguição intelectual a quem os tem.

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'o Tesouro escondido', José Tolentino Mendonça

Vejamos este livro como a pergunta do meio do caminho.
Muitas vezes temos a sensação de que, a meio da vida, somos confrontados com a experiência da complexidade, uma sensação de desorientação e um certo adormecimento interior. Olhamos para o caminho e vemos uma floresta. As evidências parecem-nos menos frequentes e acessíveis. Levamos mais tempo entre um ponto e o outro, quando em outros tempos esta viagem nos parecia tão imediata, transparente e possível.
Falar de tempos é falar das perguntas da nossa vida. Algumas vêm no início, outras no meio, e algumas acompanham o fim. O nosso tesouro, aquela pérola que procuramos incessantemente e quando encontramos vendemos tudo para a possuir, certamente continuará a existir, mas no momento parece estar escondido dos nossos olhos.
José Tolentino Mendonça vem alertar, num tom poético aliciante, a necessidade de um cristianismo sapiencial que mature e ilumine a pergunta que somos, um cristianismo espiritualmente inspirador que nos relance na aprendizagem da arte da procura interior. 
A oração cristã não é uma viagem ao fundo de si mesmo. Não é um movimento introspectivo, uma diagnose de pensamentos e moções. Pelo contrário, é ser e estar diante de Deus, colocar-se por inteiro e continuamente diante da presença Daquele que nos convida a um diálogo sem censuras. É entregar-Lhe todos os pensamentos, tudo o que somos e experimentamos.
Procuremos o silêncio para ouvimos o Seu chamamento, aceitemos o convite para estar com o Pai no nosso ser mais íntimo e despido, e talvez sintamos um coração ardente que nos abra o olhar para a procura desse tesouro escondido: um amor incondicional - despojamento, escolha e aceitar ser entregue.


«Ama o silêncio acima de todas as coisas; ele concede-te um fruto que à língua é impossível descrever... Dentro do nosso silêncio nasce alguma coisa que nos atrai ao silêncio. Que Deus te conceda perceber aquilo que nasce do silêncio.» (Isaac de Nínive)

«Uma árvore é uma semente que cresce devagar e em silêncio» (Bruno Munari)

«A maior parte das vezes, o nosso pecado não é apenas deixarmo-nos aprisionar a males concretos, mas é perdermos uma medida alta, exigente e vigilante, a medida profética e inteira do Reino em nós, e conformarmo-nos a isso, como se não nos fizesse realmente falta.»

«Meia verdade é como habitar meio quarto/ Ganhar meio salário/ Como só ter direito/ A metade da vida.» (Sophia de Mello Breyner Andresen)

«O primeiro momento da reconciliação é a decisão interior que nos leva a retomar, precisamente, a arte da procura e da inteireza. "Para ser grande, sê inteiro", dizia Fernando Pessoa. E o grande desafio da vida espiritual não é, claro, o da grandeza, mas o da inteireza. Sermos nós próprios.»

«A vida reclama de mim, nesta hora, um enérgico sim. Tenho que lutar para ser eu. Se não varrer a minha casa, ela deixa de ser habitável, deixa de ser minha...»

«A redenção, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho.» (Spe Salvi)

«A Fé é uma história de fidelidade que se constrói, não é o mero entusiasmo de um momento.»

«Ter encontrado relança-nos novamente no caminho da procura. Quantas vezes a vida espiritual não é precisamente isso: a busca longa, demorada, paciente e comprometida daquilo ou Daquele que já encontrámos (...) O desejo de um amor incondicional faz-nos perceber que o primeiro encontro é apenas o começo. Nada está concluído, pois tudo se amplia.»

«um amor verdadeiro precisa ser amadurecido no silêncio e na intimidade»

«a maior necessidade que temos para progredir é calar o apetite e a língua diante deste grande Deus, pois a linguagem que ele mais ouve é o amor calado.» (S. João de Ávila)

«a vida espiritual não se trata de uma conquista a defender, mas de um dom a repartir.»

«No meu fim está o meu início.» (T. S. Eliot)

«Não há parques de estacionamento espirituais. Há sim a chamada ininterrupta a experimentar a itinerância de uma Promessa que é maior do que nós.»

«Bem podemos, às vezes, sentir-nos tristes e abatidos por cauda daquilo que nos fazem, isso é humano e compreensível. Porém: o maior roubo que nos é feito somos nós mesmos que o fazemos.» (Etty Hillesum)

«Há tantas pessoas que passam pela nossa vida... É importante que, na hospitalidade, no serviço e no dom, sintam que não foi em vão que passaram por nós.»

«A compaixão não é apiedar-se, oferecer alguma doçura ou algum dinheiro. (...) A compaixão é olhar o outro (e a nós próprios) e ajudá-lo a revelar-se. A compaixão é revelar-lhe que ele tem valor e que Deus habita nele. É ajudá-lo a ir até ao fim daquilo que ele pode viver.» (Jean Vanier)

«Quem exclamou pela primeira vez a primeira oração não a pode ter inventado. Só pode ter reagido a um chamamento com uma resposta.» (Erri de Luca)

«O homen só é capaz de desejar Deus, só é capaz de Deus, porque Deus se inclina benevolamente para ele. (...) Abeiramo-nos de Deus, porque Deus se abeira de nós.»

«Mais do que rogar por esta ou por aquela necessidade ou interceder pela satisfação de qualquer carência, o que se pede ao Pai é que seja pai. (...) Rezamos para saber escolher o Pai a cada momento»

«O Pater está para a oração como Cristo para a humanidade e é impossível pronunciá-la, uma vez que seja e trazendo a cada palavra a plenitude da atenção, sem que uma mudança, talvez infinitesimal mas real, se opere na alma. (...) Há um momento em que, mais do que as palavras, o que conta é o estar ali em relação.» (Simone Weil)

«A Beleza de Cristo captura o nosso coração, fere-nos intimamente, abre-nos à revelação, faz com que deixemos de pertencer a nós mesmos, obriga-nos a relativizar o que éramos, a esquecer muitas vezes a nossa pátria e a casa dos pais, atrai-nos para si.»

«O cristão define-se como alguém que vive "ferido" pela beleza singular de Jesus. E essa "ferida" gera em nós desejo, vontade, atracção, disponibilidade para o seguimento.»

«Fazei coisas belas, mas sobretudo fazei das vossas vidas lugares de beleza.» (Bento XVI)

«A oração não pode ser um compartimento do meu dia, um pequeno nicho que eu encho de pensamentos e fórmulas piedosas. A oração cristã é aquela que se desenvolve seguindo os passos de Jesus e, aí, rezar é viver (...) na presença de Deus.»

«dispomo-nos a amar Deus e a adorá-lo, mas queremos guardar para nós uma parte da nossa vida espiritual. Por isso caímos frequentemente na tentação de escolher muito bem os pensamentos que vamos ter presentes nos nossos colóquios com Deus. Seja por medo ou por insegurança, facilmente damos um carácter demasiado introspectivo à oração e, muitas vezes, escondemos de Deus aquilo, em nós, que está mais necessitado da sua acção transformante e pacificadora.»

«Não é Jesus que desapareceu, é eles que ainda não aprenderam a encontrá-lo e a reconhecê-lo, prisioneiros de um défice de conhecimento que ainda têm, e que os impede de aceitar a condição pascal de Jesus.»

«Quando se faz uma peregrinação, muitas vezes nos interrogamos onde é que ela termina, porque uma das coisas que se experimenta é que, à medida que caminhamos, a realidade torna-se sempre mais aberta. Quando o peregrino chega a perceber no seu coração, então é que começa verdadeiramente. A peregrinação não tem propriamente um fim: tem uma extraordinária finalidade. A de Paulo é Cristo. E a nossa também.»

«No Magnificat, Maria canta a sua própria história. E isso desafia-nos a fazer o mesmo. Ninguém vive uma vida espiritual fecunda enquanto não for capaz de assumir aquilo que é na sua originalidade, se não for capaz de construir a relação com Deus como um diálogo vivo entre um "eu" e um "tu". A oração de Maria não é feita de fórmulas. Ela expõe a sua vida naquilo que diz.»

«Deus não realiza todos os nossos desejos, mas é fiel e cumpre todas as suas promessas.»

«Deus criou o Ser Humano para te poder criar a ti. Deus abençoou a criação inteira para que tu, em cada nascer do Sol e em cada poente, te sentisses abençoado. Deus escutou os lamentos e as lágrimas do seu povo no Egipto, para poder escutar hoje a tua aflição e o teu grito. Deus inspirou os profetas para que hoje não te faltassem as palavras de consolação e de esperança de que precisas. Deus fez nascer Homem o seu Filho, para que hoje tu pudesses nascer mais perto de Deus.»

16 julho 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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'O Adeus às Armas', Ernest Hemingway

'O Adeus às Armas' sobe incontestavelmente ao pódio dos melhores romances mundiais e contemporâneos, sendo muito provavelmente o melhor romance de Ernest Hemingway.


E assim, a imaginação transporta-nos para o cenário da Primeira Grande Guerra, através de uma incansável e pormenorizada narração, ainda que em nada supérflua, no estilo peculiar de Hemingway, sintético e directo. O autor expõe-nos um registo despojado entre a literatura, a crónica de viagem e o jornalismo de guerra, juntando a poesia dos grandes sentimentos ao realismo do quotidiano prosaico: uma história de amor, doce e inesquecível, de braço dado com uma história de guerra, cruel e diferente.
Frederic Henry e Catherine Barkley são os aventureiros deste romance, que a morte e a violência sempre espreitam. Frederic, um tenente norte-americano que serve no exército italiano, e Cat, enfermeira inglesa que se torna amante de Frederic, demonstram-nos um amor exemplar até na dificuldade, um romance de uma intensidade fora do normal, esboçando os grandes problemas do século em que viviam e em torno do qual se aprofundam as angústias de um tempo incerto e de luta.
Um livro que jamais se esquece. Uma viagem a um tempo de guerra e de amor, de esperança e desespero. Com um final que nunca mais acaba em nós. Um portentoso retrato da vida e da morte. E uma história de amor em tempo de guerra que, podendo sê-lo, é tudo menos banal. Em suma, um livro de sempre.

Quanto a frases e pensamentos que me marcaram, neste livro pretendo realçar apenas este momento:

«Muitas vezes o homem deseja estar só, e a mulher deseja também estar só, e se se amam têm reciprocamente ciúmes desse desejo, mas posso dizer confiadamente que nunca sentimos tal coisa. Podíamos sentir-nos sós quando estávamos sós – sozinhos contra os outros. (...) Nós nunca nos sentíamos sós, e nunca tínhamos medo quando estávamos juntos. (...) Quando as pessoas defrontam o mundo com tanta coragem, o mundo só pode quebrá-las matando-as, e por isso, é claro, mata-as. O mundo quebra toda a gente, e depois muitos ficam mais fortes no lugar da fractura. Mas àqueles que não consegue quebrar mata-os.»
12 julho 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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"O último dia de um condenado", Victor Hugo

    Victor Hugo traz-nos nesta obra um grande manifesto verídico contra a pena de morte, através da colecção dos escritos que um prisioneiro condenado à morte compôs na prisão até algumas horas antes da execução da sua sentença. Põe em relevo alguns dos valores mais significativos das civilizações humanas, como a consciência, a liberdade e a justiça, valorizando a vida humana e criando um debate mental sobre a pena de morte.
     A qualidade da prosa e a modernidade da análise psicológica que caracterizam "O Último Dia de um Condenado", a par das coordenadas sociais em que a novela se insere, fazem deste manifesto contra a pena de morte uma obra literária e um documento.




«Outrora (…) era sempre festa na minha imaginação. Eu podia pensar no que queria. Eu era livre.»

«Os homens estão todos condenados à morte com adiamento indefinido. Por conseguinte, poderá haver alguma coisa que tenha mudado assim tanto a minha situação?»

«Se tudo, à minha volta, é monótono e descolorido, não existirá em mim uma tempestade, uma luta, uma tragédia?»

«Ter-se-ão ao menos alguma vez detido sobre esta ideia pungente de que no homem que eliminam há uma inteligência, uma inteligência que estava a contar com a vida, uma alma que não se dispôs a morrer? Não. (…) E pensam sem dúvida que, para o condenado, não há nada antes nem depois.»

«Eu deixo uma mãe, eu deixo uma esposa, eu deixo uma filha. (…) Mas a minha filha, a minha criança, a minha pobre pequenina Maria, que ri, que brinca, que canta a esta hora, e não pensa em nada, essa é que me faz sofrer.»

«Uma vez cravado a esta cadeia, não se é mais que uma fracção deste todo hediondo a que se chama “o cordão”, e que se move como um só homem. A inteligência deve abdicar, a golilha de prisioneiro condena-a à morte; e o próprio animal nunca mais deve ter necessidades e apetites sem ser a horas fixas.»

«Não estou doente! Com efeito, sou jovem, são e forte (…) e, no entanto, tenho uma doença, uma doença mortal, uma doença feita pela mão dos homens.»

«Se ao menos estes jurados a tivessem visto, à minha linda e pequenina Maria, teriam compreendido que não é preciso matar o pai de uma menina de três anos.»

«Cem vezes a morte!
(…)
Cinco anos de galés e que fique o caso arrumado – ou vinte anos – ou para sempre com o ferro em brasa. Mas concedam-me a vida. Um forçado anda ainda, vai e vem, vê o sol.»

«Alugavam-se mesas, cadeiras, andaimes, carroças. Tudo estava invadido pelos espectadores. Comerciantes de sangue humano gritavam a plenos pulmões: - Quem quer lugares? -  Enchi-me de raiva contra este povo. Apeteceu-me gritar-lhe: - Quem quer o meu?»

23 fevereiro 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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"O Véu Pintado", Somerset Maugham

     Este romance clássico de Somerset Maugham retrata a história de amor, passada na primeira metade do século XX, de um jovem casal britânico, Walter e Kitty, que se casam pelos motivos errados. Kitty é uma mulher da alta sociedade e Walter é um médico da classe média.
      Ao se casarem, mudam-se de Londres para Xangai, onde Kitty conhece o homem que vai encaminhar o seu casamento para as ruas da amargura: Charles, homem da alta sociedade e político. Ao descobrir que Kitty o traíra, Walter aceita, num pacto de vingança, um trabalho voluntário numa aldeia remota da China que estava infestada por uma epidemia de cólera e leva Kitty consigo, na esperança de que a ordem natural das coisas poria termo à sua vida.
     Contudo, a viagem acaba por ser libertadora, traz novo significado à sua relação e à sua essência. À medida que o tempo passa, ambos crescem como pessoas e evoluem, também devido à catástrofe que os rodeia, e é então que o amor que nunca tiveram em comum se vai transformar numa grande prova de amor e solidariedade.
26 dezembro 2010
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"Até ao fim", Vergílio Ferreira


Nesta obra, Vergílio Ferreira explora a temática da morte enquanto atentado à vida doloroso e difícil de entender. O protagonista, Cláudio, relata-nos a trágica história da sua vida de casal com Flora e o seu jovem filho Miguel, que mais tarde se revela viciado em droga e morre num tiroteio duma operação policial. Entendendo o ser como parte integrante de uma ordem universal, aceitando a condição humana limitada mas ao mesmo tempo desejando o infinito ou a imortalidade, Cláudio combate a fatalidade do destino do seu filho com tentativas de racionalização dos acontecimentos e mergulha-nos gradualmente numa planópia de sentimentos contraditórios e divagações filosóficas, ao mesmo tempo que aponta e reflecte sobre a beleza e peculiariedade da natureza, particularmente do mar, e do quão pequenos e maravilhosos somos aos olhos desse mundo cruel em que vive.


«Nada vale a opinião que se tenha porque tudo é um erro»

«Eu disse que o sentir era hipócrita? Não é verdade. É o que está mais próximo do ser. (...) Mas só as palavras o esclarecem, só nelas o sentir é verdade assumida. Gosto de me assumir em tudo o que sou»

«Há um limite da lógica, há um limite da aceitação. Para lá tudo é possível admitir-se. É onde as duas começam e o maravilhoso e a crendice. Onde a suma inteligência convive com a suma estupidez. (...) Onde o homem se renega e tem vez o curandeiro»

«A felicidade não se mede pela quantidade do que nos aconteceu de agradável, mas pela quantidade de nós que responde ao que acontece»

«Há um mundo de coisas de permeio entre a infância e agora e tu não estás lá. Porque a certa altura, deves sabê-lo, um pai deixa de entrar no jogo das coisas reais e passa para a mitologia. É quando ele é adorável na sua ficção»

«Sentia-me violentamente ofendido, mas não o mostrava. Porque sentirmo-nos ofendidos é afirmarmos a eficácia de quem nos ofende. Só o podemos mostrar quando a nossa dignidade está em causa. Mas só o está quando a importância do outro é inegável»

«Há assim uma luta entre a agitação de imaginar-te e a travagem de estar ali no teu limite. Mas a imaginação é mais forte, transborda para além de ti. Depois volto a ver-te para tudo ser real»

«O que é que de essencial eu vim procurar aqui. Ah, se eu soubesse. Porque se eu soubesse, não vinha. A gente só procura o que sabe mas não sabe que sabe, porque todo o saber é mortal. O saber é um vício que quanto mais, tanto mais. A gente quando muito sabe só para que lados fica o saber»

«Uma vida, como é? Uma estrutura de ligações aguenta-nos de pé. Por isso na velhice, uma solidão até ao absurdo de si e depois é só cair»

«Ter certezas é ter também força para as ter - quantos não têm só a força sem aquilo a que aplicá-la? Porque ter força é que é. É um modo de ser temperamental e o resto é pretexto para o temperamento. (...) São os tipos exemplares não da doutrina que professam mas da energia com que a defendem»

«O grande problema de um autor é o da sintonização do autor. É assim. Entrar no jogo é difícil. Abdicarmos de nós é dificílimo porque nós somos mais do que o universo, que é só uma fracção de nós porque nós somos nós e ele»

«A dor dói sempre o mesmo, a diferença está em nós»

«Porque escrevo? Porque gosto de fazer, de me realizar numa obra, de haver futuro para mim, de visitar o encantamento, de descobrir o mistério do real»

«Não há mais verdade do que o sol e o mar»

29 novembro 2010
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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'A Igreja no Tempo', D. Manuel Clemente


Este pequeno livro, escrito pelo actual bispo do Porto, D. Manuel Clemente, apresenta-nos uma síntese histórica absolutamente esclarecedora e agradável de ler do que foram os dois primeiros milénios do Cristianismo no Mundo, desde a pregação apostólica - o primeiro movimento evangelizador - até ao apelo do papa João Paulo II à «nova evangelização».


 Expõe-nos o autor que, independentemente das circunstâncias que a Cristandade habitou, é sempre a mesma mensagem que, com vigor sempre renovado, a Igreja propõe ao mundo, pedindo adesão vital a Jesus Cristo. Porque, citando João Paulo II, «a fé e a razão são como duas asas, que elevam o espírito humano até à verdade de que não pode dispensar-se», e as sociedades devem adoptar essa verdade universal sobre a qual possam edificar a sua integridade e se unificar.

09 setembro 2010
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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"Noites Brancas", Fiódor Dostoievski



Fiodor Dostoievsi fala-nos das memórias de um sonhador, um romântico mas solitário sonhador, que vagueia em “noites brancas” de plena Primavera pela S. Petersburgo do século XIX. As noites são brancas porque em S. Petersburgo, devido à sua localização geográfica, há uma altura no Verão em que a noite não chega a ser noite, o sol praticamente não se põe.

É precisamente numa maravilhosa “noite branca” que o nosso herói se apaixona. Dois jovens encontram-se numa ponte sobre o rio Nievá e dão início a uma envolvente e intensa, embora fugaz, história de amor, carregada de fantasia, emoção e lirismo.

Nesta novela singular, Dostoiévski constrói uma atmosfera delicada e fantasmagórica que evoca o gosto romântico da época. Nela, a própria cidade de S. Petersburgo, com os seus palácios e pontes, revela-se como personagem. Não falta o final surpreendente já habitual nos seus livros.


«Como a alegria e a felicidade tornam belas as pessoas! Como o amor enche o coração! Quando nos sentimos felizes parece-nos que o coração nos vai transbordar para o coração do ente amado. Queremos que todos estejam alegres, que todos se riam. E como é contagiosa, esta alegria!»

«O desejo de impor, a mim também, a sua felicidade»

«Quando estamos infelizes, sentimos com maior violência a infelicidade dos outros; o sentimento não se destrói, concentra-se...»

«Como é insuportável ser-se feliz em certos momentos!»

«Todas as criaturas escutam com alegria qualquer consolação, sentem-se felizes por encontrar a mínima sombra de justificação.»

«Por que razão mesmo o melhor dos homens tem sempre qualquer coisa a esconder a outro e se cala diante dele? Por que não dizer francamente, à vontade, o que está no coração, quando se sabe que não se falará em pura perda?»

«Quando amamos, lembramo-nos das ofensas?»

«Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?»
28 agosto 2010
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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1984, George Orwell


Uma sociedade onde até pensar pode ser crime é o cenário em que se desenrola a obra “1984”, de George Orwell. Com este romance político, George Orwell imprimiu no imaginário popular um dos pesadelos mais fortes do conturbado século XX. A sociedade rigorosamente vigiada, em que nem os pensamentos são livres, tornou-se um símbolo do horror dos regimes totalitários. Mas, se em meados do século XX se pensava na União Soviética de Estaline como o modelo inspirador deste horror, passadas cinco décadas a obra de Orwell continua a dar que pensar.

Winston, herói de “1984”, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito colectivamente, mas cada pessoa vive sozinha. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. O'Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que "só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro".


«Devia tratar-se toda a gente por camarada»
«O Partido tinha o poder de alterar o passado e determinar este ou aquele acontecimento: isto nunca aconteceu»
«A única finalidade do casamento reconhecida cingia-se à procriação de filhos para o serviço do Partido. O acto sexual era encarado como uma operação desprovida de importância, vagamente repugnante (…) O Partido estava a tentar extinguir o instinto sexual»
«Um amor autêntico parecia-lhe acontecimento quase impensável (…) Graças a um meticuloso condicionamento tinham conseguido extinguir nelas os impulsos naturais»
«Os proles e os animais eram livres»
«A filosofia do Partido negava não apenas a validade da experiência, como até a própria existência da realidade exterior»
«Era sempre um tanto ou quanto perigoso fazer algo que sugerisse gosto pela solidão, até mesmo passear sozinho»
15 agosto 2010
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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Em mãos

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