Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Falar verdade a duvidar
nostro intelletto, se 'l ver non lo illustra
di fuor dal qual nessun vero si spazia.
Posasi in esso, come fera in lustra,
tosto che giunto l'ha; e giugner puollo:
se non, ciascun disio sarebbe frustra.
Nasce per quello, a guisa di rampollo,
a piè del vero il dubbio; ed è natura
ch'al sommo
pinge noi di collo in collo.»
Dante, Paradiso, IV, 124-132
A ilustre casa portuguesa

«Já se viam chegados junto à terra
que desejada já de tantos fora,
que entre as correntes Índicas se encerra
e o Ganges, que no Céu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
quereis levar a palma vencedora:
já sois chegados, já tendes diante
a terra de riquezas abundante!
|
A vós, ó geração de Luso, digo,
que tão pequena parte sois no mundo,
não digo inda no mundo, mas no amigo
curral de Quem governa o Céu rotundo;
vós, a quem não somente algum perigo
estorva conquistar o povo imundo,
mas nem cobiça ou pouca obediência
da Madre que nos Céus está em essência.
|
Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
que o fraco poder vosso não pesais;
vós, que, à custa de vossas várias mortes,
a Lei da Vida Eterna dilatais:
assim do Céu deitadas são as sortes
que vós, por muito poucos que sejais,
muito façais na Santa Cristandade,
que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!
|
Vede-los Alemães, soberbo gado,
que por tão largos campos se apascenta;
do sucessor de Pedro rebelado,
novo pastor e nova seita inventa;
vede'lo em feias guerras ocupado,
que inda co cego error se não contenta,
não contra o soberbíssimo Otomano,
mas por sair do jugo soberano.
|
Vede-lo duro Inglês, que se nomeia
rei da velha e santíssima Cidade,
que o torpe Ismaelita senhoreia
(quem viu honra tão longe da verdade?),
entre as boreais neves se recreia,
nova maneira faz de cristandade:
para os de Cristo tem a espada nua,
não por tomar a terra que era sua.
|
Guarda-lhe, por entanto, um falso rei
a cidade Hierosólima terreste,
enquanto ele não guarda a Santa Lei
da Cidade Hierosólima Celeste.
Pois de ti, Galo indigno, que direi?
Que o nome «cristianíssimo» quiseste,
não para defendê-lo nem guardá-lo,
mas para ser contra ele e derribá-lo!
|
Achas que tens direito em senhorios
de cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,
e não contra o Cinífio e Nilo rios,
inimigos do antigo Nome Santo?
Ali se hão-de provar da espada os fios
em quem quer reprovar da Igreja o Canto.
De Carlos, de Luís, o nome e a terra
herdaste, e as causas não da justa guerra?
|
Pois que direi daqueles que em delícias,
que o vil ócio no mundo traz consigo,
gastam as vidas, logram as divícias,
esquecidos do seu valor antigo?
Nascem da tirania inimicícias,
que o povo forte tem, de si inimigo.
Contigo, Itália, falo, já sumersa
em vícios mil, e de ti mesma adversa.
|
Ó míseros Cristãos, pela ventura
sois os dentes, de Cadmo desparzidos,
que uns aos outros se dão à morte dura,
sendo todos de um ventre produzidos?
Não vedes a Divina Sepultura
possuída de Cães, que, sempre unidos,
vos vêm tomar a vossa antiga terra,
fazendo-se famosos pela guerra?
|
Vedes que têm por uso e por decreto,
do qual são tão inteiros observantes,
ajuntarem o exército inquieto
contra os povos que são de Cristo amantes;
entre vós nunca deixa a fera Aleto
de semear cizânias repugnantes.
Olhai se estais seguros de perigos,
que eles, e vós, sois vossos inimigos.
|
Se cobiça de grandes senhorios
vos faz ir conquistar terras alheias,
não vedes que Pactolo e Hermo rios
ambos volvem auríferas areias?
Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;
África esconde em si luzentes veias;
mova-vos já, sequer, riqueza tanta,
pois mover-vos não pode a Casa Santa.
|
Mas, entanto que cegos e sedentos
andais de vosso sangue, ó gente insana,
não faltarão cristãos atrevimentos
nesta pequena Casa Lusitana:
é na Ásia mais que todas soberana;
na quarta parte nova os campos ara;
e, se mais Mundo houvera, lá chegara.»
|
Luís de Camões, Os Lusíadas
Aqui dentro não sou nada
Trincafiam os quatro vultos brancos
A fera entorpecida, que contesta,
E selvagem, vorazmente infesta,
As garras de demónios mil e tantos.
Já o mar parece mais aéreo,
Já o vento não se sente enquanto passa.
E o sentimento que todo artista acossa,
Se descampa numa nuvem de mistério.
Mas liberdade, jamais acorrentada,
É folha fresca, fruto da nascente.
De todo esta alma viva vos consente,
Que seu ser emancipado volte ao nada.
E assim voas, destemido animal bravo!
Tudo largas e peleias. Nada impede,
Que enclausurado esta prisão te quede.
Ao sonho entregas tal clamor que te faz vivo.´
A fera entorpecida, que contesta,E selvagem, vorazmente infesta,
As garras de demónios mil e tantos.
Já o mar parece mais aéreo,
Já o vento não se sente enquanto passa.
E o sentimento que todo artista acossa,
Se descampa numa nuvem de mistério.
Mas liberdade, jamais acorrentada,
É folha fresca, fruto da nascente.
De todo esta alma viva vos consente,
Que seu ser emancipado volte ao nada.
E assim voas, destemido animal bravo!
Tudo largas e peleias. Nada impede,
Que enclausurado esta prisão te quede.
Ao sonho entregas tal clamor que te faz vivo.´
NMG
Elio Pecora - Confidência
Atravessar a dor
como um quarto escuro
contando os passos, os fôlegos.
Procurar no fechado
um buraco, uma fenda,
para que não seja memória
mas presença
naquela ausência a luz.
À saída saber
que é preciso voltar.
E a alegria ainda
à espera do assalto.
Elio Pecora
in Poemas Escolhidos
Sonho
Segredos escondidos no aposento secreto do coração.
Rostos e desejos espalhados de cada vez tentar um igual percurso.
Grito curto, abrasado, dentro de quartos fechados.
A voz ténue me levando através das neblinas.
Em ti as palavras ditas se dissolvem.
Um fim que quer passar por um começo,
onde a Lua surge redonda e nos distrai.
Não vejo, não escuto, enveredo
por um longo caminho, sem mapa
– Agora, promete-me ser eterno –
e não deixo sinais para voltar.
NMG
Noite de Saudade
A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor, que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu ouço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
Florbela Espanca
in Sonetos


