Vamos à raiz do problema

Um dos principais problemas (ou o principal) da crise financeira que Portugal atravessa é a demografia actual. Ter muito menos população e uma pirâmide demográfica invertida gera tantos problemas económicos que nem vale a pena listá-los. E com a dívida que o país tem, e uma segurança social que promete o que não pode cumprir, ainda se torna mais grave. Um forte decréscimo na população autóctone dum país é sempre um problema sério, de consequências vastas e prolongadas no tempo.

Fonte: Cachimbo de Magritte
24 julho 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves

O fantasma do passado


«Paira-me à superfície do cansaço qualquer coisa de áureo que há sobre as águas quando o sol findo as abandona. Vejo-me como ao lago que imaginei, e o que vejo nesse lago sou eu. Não sei como explique esta imagem, ou este símbolo, ou este eu em que me figuro. Mas o que tenho por certo é que vejo, como se de facto visse, um sol por trás de montes, dando raios perdidos sobre o lago que os recebe a ouro escuro.»


Fernando Pessoa
in Livro do Desassossego
21 julho 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves

O ilusionismo de Relvas


O circo que se instaurou pela descoberta de mais uma licenciatura polémica duma figura importante do Governo português foi um mero ataque circunstancial à credibilidade dos políticos? Ou terá antes sido uma manobra estratégica do próprio Governo?



Enquanto as manchetes dos jornais e os destaques televisivos se focavam na Universidade Lusófona de Lisboa, em Belém alinhavava-se o ataque aos subsídios do sector privado como forma de "combater as injustiças" em relação ao sector público. O Tribunal Constitucional, como se temia, entendeu que os sacrifícios da austeridade não podem ficar confinados aos funcionários públicos e pensionistas e deveriam ser, de certa maneira, estendidos, pelo menos numa medida equivalente, aos outros cidadãos. Portanto, no entendimento de Passos Coelho, é mais justo cometer duas ilegalidades do que pôr termo a uma.
Para desviar o olhar desta nova polémica, imediatamente se reacendeu o interesse na licenciatura de Miguel Relvas, que autorizou os media à consulta ao seu dossier académico, dando assim mais tempo de antena para discussões sobre as formações "em cima do joelho" dos políticos portugueses, os jogos de cadeiras de poder e todos os afins que nos levam a questionar até que ponto valerá a pena investir numa formação académica.
Miguel Relvas, além de se afigurar como o bobo da corte, dá cartadas de Luís de Matos. Uma cadeira à qual poderá ainda ter equivalência, se tudo o que achamos ser aparentemente transcendente continuar a revelar-nos surpresas.
08 julho 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves

Renascer



“E não nos deixeis cair em tentação”.
Rezo devagar estas palavras, fazendo-as minhas. 
Não me deixes, Senhor. 
Não me deixes quando as paredes do tempo se tornam instáveis
e as palavras de hoje têm a dureza do pão amassado de ontem. 
Não me deixes quando recuo porque é difícil, 
quando quase me inclino perante a idolatria do que é cómodo e vulgar. 
Não me deixes atravessar sozinho os baços corredores da incerteza,
ou perder-me no sentimento do cansaço e da desilusão. 
Não me deixes tombar na maledicência e no descrédito quanto à vida.
Que a Tua mão levante à altura da luz a minha esperança!
Que o Teu nascimento inspire os meus renascimentos. 
Que a Tua presença me ensine o que é tornar-se presente.
Que o dom que fazes de Ti me ajude a fazer da vida oferenda de amor. 


 José Tolentino Mendonça

16 maio 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves

O coming out de um pro-life


Dificilmente poderei ser considerado um conservador nos costumes. Sou a favor da legalização total das drogas, do jogo e contra a existência do crime de lenocínio. Acho que o contrato de casamento não deve ser tipificado, mas a sê-lo não deverá impôr restrições de género ou número. Acho que um casal deve poder recorrer aos métodos que achar necessários para constituir família desde que não viole os direitos de outrém, e considero a institucionalização como o pior destino possível a dar a uma criança que perca os pais biológicos.

Foi, assim, quase com naturalidade que tomei posição em favor da legalização do aborto há uns anos atrás. Os argumentos eram quase lógicos e o simples abanar da bandeira da liberdade da mulher utilizar o seu corpo, apelava aos meus instintos libertários. Também contribuiu para esta posição uma simples tomada de consciência de que, a certa altura na minha vida, se tivesse tivesse acontecido contribuir para uma gravidez indesejada, provavelmente teria patrocinado um aborto. Considerei que seria hipócrita não apoiar a legalização de algo que eu teria incentivado no passado se tivesse caído nessa situação.

Desde que o aborto foi legalizado em Portugal, ocorreram 80 mil abortos. Sugiro ao leitor que pare e tente visualizar este número. Este número corresponde a um estádio da luz cheio ou ao número de crianças em 500 escolas primárias. Corresponde a cerca de 16% de todas as crianças nascidas no mesmo período de tempo. Não tenho preparação para discutir questões filosóficas ou médicas sobre quando efectivamente acontece o início da vida, mas segui a discussão o suficiente para saber que não existe consenso científico em relação a esse momento (da mesma forma que não existiu consenso científico em relação ao estatuto de ser humano de Índios e escravos no passado). Na altura, assumindo a dúvida, pensei que o melhor fosse deixar à mulher a opção. Assumo agora que estava errado.

Em muitos momentos da história, os povos caíram no erro de menosprezar formas de vida humana que consideravam inferiores. Os índios americanos, os negros na África colonial, os escravos nos EUA, as crianças de Esparta ou as mulheres em diversos locais tiveram a certa altura o seu direito à vida desvalorizado. Todas estas discriminações eram aceites pacificamente por todos os contemporâneos como banais. Todos estes povos sem excepção acabaram por ser crucificados pela história. O caso histórico recente do nazismo é um bom exemplo deste facto. Apesar do regime nazi não ter sido o mais mortífero de todos (a revolução cultural Chinesa e o Stalinismo foram directamente responsáveis por mais mortes), há algo de aterrorizante na forma como uniu todo um povo no horror. Ao contrário das mortes do Stalinismo, as mortes nos campos de concentração eram aceites como necessárias e normais pela maioria, e não apenas por uma elite. Havia um consenso, que emergiu quase de forma natural, de que judeus, ciganos e homossexuais tinham um direito à vida mais limitado. Tudo isso foi racionalizado de uma forma ou de outra, e aceite por todos como natural. Quando por vezes se questionam alemães que eram adultos nessa altura e que tiverem um papel qualquer menor em toda a máquina de guerra, sobre o porquê de terem aceite fazer parte disso, a resposta tímida é invariavelmente a mesma: tudo parecia natural, a maioria das pessoas não estava consciente de estarem a fazer parte de uma matança. Isto porque se foram dando passos lentos, que fizeram tudo aquilo parecer lógico e inevitável.

Hoje, alimentados pela dúvida legítima sobre o momento exacto do início da vida, temos duas opções. A primeira opção é assumir-se pró-vida e arriscar-se, quando a dúvida for desfeita, a ser acusado de ter contribuido para a limitação da liberdade das mulheres.  A segunda opção é defender a liberdade de escolha e arriscar-se, se vier a haver consenso de que a vida de facto começa no momento da concepção, a ter sido cúmplice de uma das maiores chacinas da história da humanidade. Entre as duas opções, a que me aterroriza mais é a segunda. No primeiro caso poderemos sempre argumentar que a liberdade da mulher utilizar o seu corpo esteve sempre presente, mas apenas até ao momento da concepção. Aterroriza-me muito mais pensar que poderei estar hoje no papel do pequeno funcionário público alemão que despachava as roupas dos judeus assassinados. Aterroriza-me pensar que ao aceitar o aborto como um acto legal e, pior do que isso, banal, fui cúmplice menor no assassinato de 80 mil vidas humanas. Quando daqui a 40 anos se realizar o aborto 1,000,000, e me questionarem porque fui complacente, irei mostrar este texto. Temo que não me irá absolver por completo.

Carlos Guimarães Pinto
 
13 março 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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Como se manda uma montanha abaixo

17 fevereiro 2012
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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Mensagem de Natal

Is 9, 2-7
«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.»


Os tempos que vivemos não são de todo promissores. A crise parece enegrecer a cada dia que passa, toca-nos cada vez mais e expõe as nossas fragilidades, medos, dúvidas. Contudo, é verdade que não podemos contar com rezas para solucionar a vida toda dum dia para o outro. Jesus não resolve problemas de preguiçosos: o que Ele faz é precisamente tirar-nos o medo.

Votos sinceros de um santo e feliz Natal, na companhia dos que vos são queridos, e de que seja vivido sobretudo na alegria e na esperança. Deus veio ao mundo por nós, para nos ensinar a amar e assim nos salvar, e nunca se cansa de nós. Cabe a nós dar-Lhe algum espaço na nossa vida para conseguirmos ver essa alegria e essa esperança, que nunca se extinguem.



Que este Natal seja um tempo de nos desprendermos das palavras de circunstâncias e dos presentes, e que seja um tempo de nos darmos às pessoas, de estar presentes junto dos que nos rodeiam e precisam de nós.


Um forte abraço

23 dezembro 2011
Posted by Nuno T. Menezes Gonçalves
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